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Depressão mal do Século? Só tomar um remedinho que passa?

Atualizado: 12 de abr.

Por: Psicóloga Hegli Norimar de Menezes



Quem já não ouviu falar: “isso é falta do que fazer”, “nossa você tem uma vida ótima, não sei porque está assim”, “logo isso passa”, “sai dessa”, “olha a vida de fulano e você aí nessa” e por aí vai.

O senso comum fala: depressão a doença do século, porém estamos no século XXI e há relatos de casos de depressão desde o século VI a.C., Hipócrates descrevia que o comportamento era “governado” por quatro níveis relativos de humores.  Na Idade Média a melancolia era castigo de Deus. No final do século XVIII a melancolia é traduzida como “o grande sintoma do tédio destilado pela velha sociedade” A partir do século XIX a melancolia passa a ser considerada doença mental.

Atualmente temos mais acesso a informações o que explica o porquê de a depressão ser considerado a doença do século? Talvez seja um dos fatores, mas existem outros, como genéticos, sociais, emocionais, mudanças de estilo de vida através dos tempos. Na atualidade lidamos com vários fatores que no passado, não muito distante, não existiam. Temos, mais competitividade no mercado de trabalho, nos estudos, somos cobrados a ser sempre melhores. Não podemos esquecer dos hormônios, principalmente serotonina e noradrenalina e algumas doenças como por exemplo disfunções da glândula tireoide.

Outra frase que se ouve muito hoje em dia:  Só tomar esse remedinho que passa, como se fosse uma dor de cabeça ou uma cólica.  A interação medicamentosa é importante nos quadros depressivos, principalmente nos casos mais severos que levam a episódios psicóticos com alucinações e/ou delírios, porém nem sempre apenas o medicamento é a solução, há necessidade de entender o que leva a depressão, quais os elementos estressores que estão envolvidos, se há perdas, luto, e devemos entender que luto não é só pela perda de um ente querido, há várias formas de luto, se há uma condição de saúde  instaurada, como hipotireoidismo,   ainda pode existir a condição em que o  paciente é resistentes ao tratamento farmacológico, ou seja,  aqueles que não respondem a vários esquemas de tratamento, todos eles efetivos, em doses adequadas e por tempo suficiente.

Banalizar a depressão, principalmente diante de uma pessoa que se encontra em um quadro depressivo pode piorar sua condição, já que a tendencia de isolamento é muito grande em pessoas deprimidas, a perspectiva de futuro é sombria, o interesse pelas “coisas” se esvai, nada faz muito sentido, inclusive viver, por isso muitas vezes para pessoas em depressão a morte é a única opção e vão planejando silenciosamente como tirar a própria vida.  A dor psíquica torna-se física, em alguns casos o paciente se auto lesiona, na tentativa de transferir a dor psíquica para a dor física que é “palpável” ou visível, até mesmo explicável, enquanto a dor psíquica é digamos oculta, não é visível, não há uma medida, como quando se chega na emergência e o médico pergunta de 0-10 qual o nível da sua dor.

A sociedade que estipula a depressão como a doença do século está preparada para lidar com seus sinais e sintomas? Muitas famílias ainda não entendem seus entes que estão passando por um quadro depressivo e os julgam, empregadores não entendem seus funcionários e os taxam das mais diferentes formas, e repetem tome o remedinho que passa, como se fosse a pílula mágica ou a varinha do pirlimpimpim e ao tomar tudo some e volta ao” normal”.

Infelizmente não é assim, demanda tempo, terapia, estratégias para lidar com os elementos estressores que levaram a depressão, entender quais são e como mudá-los exige do paciente, muitas vezes, um grande esforço.

Portanto, quando alguém lhe disser que está em depressão não diga frases prontas, acolha de forma afetuosa, ouça o que essa pessoa tem a dizer, muitas vezes ela não quer soluções e sim apenas ser ouvida e validada na sua dor, mesmo que seja por um instante, invalidar o sentimento de alguém deprimido é invalidá-la como pessoa.

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